O velho e a vida.

     O velho acorda com um cachorro latindo, seguido do cacarejar de um galo. Como todos os outros dias. É como se o cachorro precisasse acordar o velho galo, pra ele lembrar de suas obrigações.

     __Au!  Auau! Auauauau auau!

     ­­__ Cocoricóóóó. Cocoricóóóó...

     O homem cumpre sempre o mesmo ritual matinal: acorda, levanta devagar, vai até um canto onde tem uma bacia com água (por dias a mesma água), molha o rosto, volta ao seu fogão rústico feito de pedras onde ainda tem brasa e calor da noite anterior, aquece sua cevada, serve-a em um vidro de maionese velho que ainda mantém seu rótulo e senta em um tronco, ao lado da porta da casa, onde enrola o seu palheiro da manhã.

     E como em todas as outras manhãs, o cão da casa em frente o saúda,  latindo, babando e mostrando os dentes:

­­­, bbandop e mosrando os dentesada casa, no pda noite anterior, aquece sua cevada, serve-a em um vido de maionese velho q­__ Au!  Auau! Auauauau auau!

 Mas o velho logo esquece o cachorro desviando seus olhos para a casa ao lado da do cachorro o “riquinho” da vizinhança está saindo para o trabalho, no seu reluzente Gol quadrado.

 ­­__ Vruum, vruuummm, vruuuummmmm. As crianças indo a pé ou bicicleta para o grupo escolar da região, por algum motivo, lhe arrancam um breve suspiro melancólico.

     A  manhã segue morta e amena como sempre, até que a fome bate e o velho vai preparar algo, que geralmente ganha dos vizinhos por pequenos serviços. Ele come em colheradas generosas o que quer que tenha cozinhado e se prepara pro cochilo da tarde quente. Como em todos os outros dias, acorda com o filho do riquinho chutando com força uma bola contra uma parede, é meio que um aviso sonoro para os amiguinhos que já podem vir brincar:

     __ Tum! Tum! Tuum! Tuuummm...

     O velho acorda, levanta devagar, vai até um canto onde tem uma bacia com água (por dias a mesma água), molha o rosto. Senta em um tronco, ao lado da porta da casa, onde enrola o seu palheiro da tarde. Daí tem o complemento de fim de dia: a aguardente que ganha do dono do armazém, onde cuida do chiqueiro nos fundos da casa.

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     As crianças voltando da  escola, o cachorro quieto na casinha, o galo dorme, o sol avermelhado no poente melancólico lhe avisa que o dia acabou.



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     Amanhece. O cão late:

­­__ Au!  Auau! Auauauau auau!

     O galo canta:

__Cocoricóóóó. Cocoricóóóó. Cocoricóóóó...

O carro sai:

­­__ Vruum, vruuummm, vruuuummmmm...

A bola bate na parede:

__ Tum! Tum! Tuum! Tuuummm...

E mais uma vez o velho encara o poente, de forma melancólica e vazia.

Passa noite, chega o novo dia. O cachorro acorda o galo.

__ Au!  Auau! Auauauau auau!

     O galo canta:

__Cocoricóóóó. Cocoricóóóó. Cocoricóóóó...

O carro sai:

­­__ Vruum, vruuummm, vruuuummmmm...

A bola bate na parede:

__ Tum! Tum! Tuum! Tuuummm...

     O velho acorda, levanta devagar, vai até um canto onde tem uma bacia com água (por dias a mesma água), molha o rosto. Senta em um tronco ao lado da porta da casa, onde enrola o seu palheiro da tarde. Mas neste dia algo aconteceu: segundo o velho só soube depois. O filho do riquinho chutando com força uma bola contra uma parede não era só um aviso sonoro para os amiguinhos que já podem vir brincar:  o último Tuuummm  era também um aviso pro dono da casa onde vivia o cachorro de que a esposa do riquinho estava sozinha em casa mais uma vez, esperando-o. O riquinho já desconfiava, e justo hoje resolveu conferir a própria sorte.  E então, algo novo acontece.

     Nos subúrios interioranos, nem a luz tem mais velocidade que a fofoca, e logo os dois únicos policiais da cidadezinha foram avisados, chegando quase que juntos com o corno.

__ Uóóóó, Uóóóó, Uóóóó, Uóóóó, Uóóóó, Uóóóó...

     Todo mundo encaminhado pro Distrito, o cachorro o olha friamente como quem diz “hoje não, até amanhã” e não latiu mais naquele dia.

Daí tem o complemento de fim de dia: a aguardente que ganha do dono do armazém, onde cuida do chiqueiro nos fundos da casa.

     As crianças voltando da  escola, o cachorro quieto na casinha, o galo dorme, o alaranjado no poente melancólico lhe avisa que o dia acabou.

­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­_______________________________________________________________________

  Amanhece. O cão late:

­­__ Au!  Auau-uuuu! Auauauau-uuuu auau-uuuu!O velho percebe uma nota a mais no latido, quase que como um choro.

     O galo canta:

__Cocoricóóóó. Cocoricóóóó. Cocoricóóóó...

O carro  não sai, mas a bola bate na parede, não era boa ideia mandar o menino para a escola:

__ Tum! Tum! Tuum! Tuuummm...

     Desta vez, a visão de uma criança triste  brincando sozinha o  remeteu ao passado. Nesta mesma rua, onde o velho nasceu, se criou  e envelheceu de forma amarga tal qual um vinho mal envasado que vira vinagre, era o velho e seus amigos que corriam a rua toda atrás de uma bola. “Agora não há mais vida nesta rua, naquele tempo é que era bom e a gente sabia se divertir”, pensa o velho enquanto core o olho rapidamente para um resto de cerca que sobreviveu a décadas, com algumas bolas furadas espetadas nas madeiras, meio que como um aviso  do que acontece se alguém insisti em tornar a frente da sua casa, um campinho de futebol.

E mais uma vez o velho encara o poente, de forma saudosa, melancólica, solitária, triste e vazia.

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     Passa outra noite, chega o novo dia. O cachorro acorda o galo.

Au!  Auau! Auauauau auau!

     O galo canta:

__Cocoricóóóó. Cocoricóóóó. Cocoricóóóó...

O carro sai:

­­__ Vruum, vruuummm, vruuuummmmm...

A bola bate na parede:

__ Tum! Tum! Tuum! Tuuummm...

     O velho acorda, levanta devagar, vai até o canto onde tem uma bacia com água (por dias a mesma água), molha o rosto. Desta vez senta-se dentro de casa, na única cadeira com uma pequena mesa plástica e suja de boteco, no seu barraco de apenas um ambiente com um banheiro rústico fechado por uma cortina de embalagem plástica de geladeira fosca pelo tempo, uma cama, um isopor velho, o fogão rustico de pedras, telhas de zinco, paredes de compensado que eram restos de um obra onde ele foi guardinha noturno. Acende o palheiro e decide começar o dia de forma diferente: a cevada foi trocada pela aguardente. A mesa fica de frente pra a porta, e ao lado, entre a porta e o fogão, há uma pequena pilha  de lenha e em cima dela, um facão velho e enferrujado. O latido hoje parecia mais distante. Após alguns goles, o velho foi atropelado por uma epifania de tal força,  que sentiu-se como um ser diminuto no caminho de uma manada de elefantes no cio: havia um padrão naquela merda toda!

     Enquanto olha fixamente para o cachorro lá do outro lado, ele estabelece as conexões entre o cachorro acordar o galo, o galo avisar que o dia começou, e disse a si mesmo: “amanhã essa merda acaba!”. E dormiu o resto do dia sem ouvir mais nada, por conta da bebedeira.

     Amanhece. Neste dia o cão não mais latiu, o galo não cantou, o riquinho não foi trabalha, as crianças não foram para a escola  e a bola não bateu. E em vez daquela profusão de sons aos quais seus ouvidos já estavam acostumados, o som era de um burburinho nervoso na frente de seu pátio. Ele levanta ainda tonto, tenta se apoiar na mesa e sua mão escorre em algo viscoso. Ali havia o facão sujo de sangue. Nesta manhã, o cão não latiu de novo. E outro som fez-se audível:

__ Uóóóó, Uóóóó, Uóóóó, Uóóóó, Uóóóó, Uóóóó...

Comentários

  1. Que melancolia boa! Eu tive uma infância de interir há 4 décadas, as imagens aqui apresentadas são para mim vívidas. E que desenvolvimento da história! Faça o favor de nos proporcionar mais

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    1. Há inúmeros elementos a destacar, então deixa eu escolher um. A pobreza rural urbanizada que vc modernizou

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